domingo, 31 de julho de 2011

As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva acalma um machucado.

As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.
Não me inquieto
quando não recebo as respostas
das perguntas que não fiz.
Eu me conformei
em reservar alguma coisa
de ti para saber depois.
Um pouco de nosso amor
será póstumo.
É recomendável
não descobrir todos os segredos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

eu

eu edito mas não é inédito
eu medito mas sempre sou cético
eu acredito mas não me dão crédito
eu me medico mas não tenho remédio
eu me dedico mas não é nada sério
eu implico mas não sou cego
eu sou todo ouvidos mas não ouço estéreo
eu pago mico mas não nego
eu tenho siricotico mas não lembro do telecoteco
eu sempre sigo mas não estou nem perto

eu sou o meu mistério

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O corpo e a mente
têm biografias separadas,
cada um com sua memória própria,
seu próprio jogo de charadas.
Meu corpo tem lembranças
- cheiros, tiques, andanças -
que a mente não registrou
e o corpo não tem as marcas
de metade do que a mente passou.
(Pior que uma mente insana
num corpo sem muito assunto
é um corpo que já foi ao Nirvana
sem que a mente tenha ido junto.)
Cada um tem um passado
do qua o outro não tem pista
(como um bilhete amassado)
e nem o Mahabharata
explica uma mente anarquista
num corpo socialdemocrata.
Compartilham bioplasmas
e o gosto por certas atrizes,
mas não têm os mesmos fantasmas
nem as mesmas cicatrizes.
Das duas, uma, gente:
ou toda mente é de outro corpo
- ou todo corpo mente.

Reflexões no Espelho

Por onde anda a gente quando dorme
pra acordar com esta cara disforme
de quem fez o que não devia?
E este gosto na garganta
é o resto de que janta
de que secreta ambrosia
de que gim ou malvasia?
E se só estivermos no leito
por que acordar deste jeito
com este olhar de pouco assunto?
Pra onde vai meu ser noturno
pra me deixar assim soturno
- e por que não me leva junto?

domingo, 10 de julho de 2011

All My Loving

Close your eyes and I'll kiss you
Tomorrow I'll miss you
Remember I'll always be true
And then while I'm away
I'll write home everyday
And I'll send all my loving to you

I'll pretend that I'm kissing
The lips I am missing
And hope that my dreams will come true

And then while I'm away
I'll write home everyday
And I'll send all my loving to you

All my loving I will send to you
All my loving, darling, I'll be true

quarta-feira, 6 de julho de 2011

82.

tudo pela maturidade: sofra
e sofremos o diabo: tudo pelo crescimento
levante a cabeça e siga: avante
pela sanidade: enfrente
tudo pelo seu currículo: conte
confesse humildemente: tudo pelo seu prestígio
chore: faz parte do aprendizado
cumpra o destino que lhe cabe: erre
perdoe a si mesmo: tudo pela integridade
cansa: ser gente através da vivência

18.

quantas ondas quebrarão diante de meus olhos?
talvez umas setecentas bilhões de ondas, já que do mar me afasto pouco
e beijos, quantas vezes os meus lábios roçarão os lábios dele?
provavelmente umas oitocentas e vinte mil vezes, até o final do ano.

quantas risadas ainda darei, mesmo que por dentro esteja febril,
e quantas idades durará o brilho do olhar, quantos plays meu jazz favorito?
ainda lerei uns mil e seiscentos livros na vida se minhas contas estiverem certas
e havendo tantos anos esperando por mim, e com as córneas funcionando.

quantas músicas me farão calar e treinar o disfarce do pranto,
quantas vezes vou entrar numa estrada e quantas vezes vou deixá-la,
quantos mil quilômetros irei me perseguir, por quanto tempo me rastrearei?
irei ao supermercado muito mais vezes do que chegarei ao ponto.

Anteprojeto

No princípio era o caos
ou é agora?
Brincadeira tem hora!
Eu dou meu testemunho:
Isso que está aí
É apenas um rascunho.

Poeminha de Somenos

Ser pontual
Torra até o torresmo
Já esperei muito e a todos:
Sobretudo a mim mesmo.

10

por onde queres entrar: boca, ouvido, vagina?
então entre e fique bem dentro, muito além da periferia
inicie sua turnê pelo interior do meu corpo e descubra
que muito mais do que um estômago, um fígado e dois rins
habita em mim uma cidade, um povaréu, outro planeta
experimente meu sangue, dê cá sua língua, lamba
sinta do que é feita a minha umidade, e com muito tato
desdobre meus pensamentos, que é aquela coisa enroscada
ali no meio do meu cérebro, desmonte, sacuda, não tenha medo
se cair não quebra, são várias ideias robustas
brigam entre si mas se gostam, moram na mesma casa
e onde faz barulho é onde fica o coração, musculoso e aflito
tem um som, reverbera, ora forte ora rançoso, chegue perto
e agora venha cá espiar com meus olhos, veja o que eu vejo
de que jeito enxergo o mundo de dentro pra fora, agora a alma
aproxime-se e toque, tirando o resto a alma é tudo o que sobra

Folha de Papel

Olha só o que o vento faz com o papel
E traga ele a notícia que for
Vai voar, voar
É assim quando se gosta de alguém
Não se consegue mais impedir
Que o amor
Faça o mesmo com o coração
Traga ele que razões trouxer
Nem o tempo sabe mais dizer
Quando é ontem, hoje ou amanhã.
Olha só, como a gente nem sabe
Onde está
Nós somos o papel a voar
Contemplando este mundo
Tristonho, profundo
Olha bem, porque quando se tem
Tanto amor
A gente pode ter muito mais.
Voa, voa, voa, voa...