um presente, o amor que acontece ao mesmo tempo
ele por ela, ela por ele, um pelo outro, vigilantes
um amor em que ele a quer, ela o deseja, homem, mulher
um presente, o amor que resiste ao inconstante
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
As razões que o amor desconhece
Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes de Ettore Scola, dos irmãos Coen e Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine al pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoas pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertados mais pelas flechas do Cupido do que por uma ficha limpa.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele só escuta Egberto Gismonti e Sivuca. Não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama esse cara? Não pergunte pra mim.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco, você levou-a para conhecer a sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é.
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoas pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertados mais pelas flechas do Cupido do que por uma ficha limpa.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele só escuta Egberto Gismonti e Sivuca. Não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama esse cara? Não pergunte pra mim.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco, você levou-a para conhecer a sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é.
Julho de 1998
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
51.
quem de mim você quer?
sou boa mãe, esposa exemplar
profissional respeitada, prendas do lar
gosto de plantas, sou organizada e sei bordar
quem de mim você quer?
sou meio maluca, danço sozinha
bebo profissionalmente e não dou vexame
sou sexy, malandra, boa de cama
quem de mim você quer?
leio até tarde Proust, Balzac, Flaubert
escrevo poemas, visito escolas
sou capaz de citar Baudelaire
quem de mim você quer?
faço ginástica, musculação, caminhada
nado mar adentro, jogo vôlei, frescobol
novecentos abdominais por semana
quem de mim você quer?
acampo em desertos, não tenho medo de avião
gosto de Paris, Londres, cidades plurais
bicicleta, motorhome, paraquedas, mil milhas
quem de mim você quer?
a maternal que atravessa madrugadas insones?
a visceral que não deixa você dormir?
a internacional que fala várias línguas?
escolha seu percentual de mulher
47.
o que me prejudica
é essa mania de dizer a verdade
quando deveria mentir
e fingir que estou à vontade
quando na verdade machuca
é essa mania de dizer a verdade
quando deveria mentir
e fingir que estou à vontade
quando na verdade machuca
43.
beije-me as coxas
pálpebras, dedos, lóbulos
os dois
beije-me os seios
um e outro, que são ciumentos
ambos
beije-me os lábios
superior e inferior
os grandes e os pequenos
todos
pálpebras, dedos, lóbulos
os dois
beije-me os seios
um e outro, que são ciumentos
ambos
beije-me os lábios
superior e inferior
os grandes e os pequenos
todos
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
45.
quando dá tudo errado
visto uma camiseta e faço um rabo de cavalo
quando dá tudo errado
como pouco e tomo muita água
quando dá tudo errado
me masturbo e durmo até mais tarde
quando dá tudo errado
troco os lençóis
passo perfume francês
faço as unhas das mãos e dos pés
e dispenso a penitência
já que não deu tudo certo
coloco um disco que gosto
escolho uns poemas que toquem
e os releio deitada no sofá
tudo errado que dá
é consciência
visto uma camiseta e faço um rabo de cavalo
quando dá tudo errado
como pouco e tomo muita água
quando dá tudo errado
me masturbo e durmo até mais tarde
quando dá tudo errado
troco os lençóis
passo perfume francês
faço as unhas das mãos e dos pés
e dispenso a penitência
já que não deu tudo certo
coloco um disco que gosto
escolho uns poemas que toquem
e os releio deitada no sofá
tudo errado que dá
é consciência
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
A dor que dói mais
Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde ia. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de caju. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Julho de 1998
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
pequeno grande amor
que gerou toda sorte de reflexão
se fosse apenas um pequeno amor
passaria longe do meu epicentro
se fosse um grandíssimo amor
estaria tudo ao meu redor devastado
mas foi um pequeno grande amor
daqueles que têm tamanhos pequenos para todos os lados
e só podem ser medidos por dentro
que gerou toda sorte de reflexão
se fosse apenas um pequeno amor
passaria longe do meu epicentro
se fosse um grandíssimo amor
estaria tudo ao meu redor devastado
mas foi um pequeno grande amor
daqueles que têm tamanhos pequenos para todos os lados
e só podem ser medidos por dentro
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
48
beijo eu ou beija você
primeiro?
primeiro eu me lanço
ou deixo você ser
pioneiro?
primeiro toco você ou
você me toca em janeiro?
janeiro será tarde demais
ou será mais verdadeiro?
primeiro eu ou primeiro você
a engatar a primeira?
primeiro você
primeiro?
primeiro eu me lanço
ou deixo você ser
pioneiro?
primeiro toco você ou
você me toca em janeiro?
janeiro será tarde demais
ou será mais verdadeiro?
primeiro eu ou primeiro você
a engatar a primeira?
primeiro você
44
dizem que sou autoritária, ou é do meu jeito ou não interessa
verdade, e a maior vítima é esta que lhes confessa
por mais que eu tente não consigo mandar na minha vontade
verdade, e a maior vítima é esta que lhes confessa
por mais que eu tente não consigo mandar na minha vontade
2
saudade eu tenho do que não nos coube
lamento apenas o desconhecimento
daquilo que não deu tempo de repartir
você não saboreou meu suor
eu não lhe provei as lágrimas
é no líquido que somos desvendados
no gosto das coisas o amor se reconhece
o meu pior e o meu melhor e os seus
ficaram sem ser apresentados
lamento apenas o desconhecimento
daquilo que não deu tempo de repartir
você não saboreou meu suor
eu não lhe provei as lágrimas
é no líquido que somos desvendados
no gosto das coisas o amor se reconhece
o meu pior e o meu melhor e os seus
ficaram sem ser apresentados
9
acenda um fósforo em mim, não queima
perfure com uma faca, não jorra
cuspa na minha cara, não escorre
quase nada me traz consequência
não há aderência em gente que teima
perfure com uma faca, não jorra
cuspa na minha cara, não escorre
quase nada me traz consequência
não há aderência em gente que teima
quarta-feira, 6 de julho de 2011
82.
tudo pela maturidade: sofra
e sofremos o diabo: tudo pelo crescimento
levante a cabeça e siga: avante
pela sanidade: enfrente
tudo pelo seu currículo: conte
confesse humildemente: tudo pelo seu prestígio
chore: faz parte do aprendizado
cumpra o destino que lhe cabe: erre
perdoe a si mesmo: tudo pela integridade
cansa: ser gente através da vivência
e sofremos o diabo: tudo pelo crescimento
levante a cabeça e siga: avante
pela sanidade: enfrente
tudo pelo seu currículo: conte
confesse humildemente: tudo pelo seu prestígio
chore: faz parte do aprendizado
cumpra o destino que lhe cabe: erre
perdoe a si mesmo: tudo pela integridade
cansa: ser gente através da vivência
18.
quantas ondas quebrarão diante de meus olhos?
talvez umas setecentas bilhões de ondas, já que do mar me afasto pouco
e beijos, quantas vezes os meus lábios roçarão os lábios dele?
provavelmente umas oitocentas e vinte mil vezes, até o final do ano.
quantas risadas ainda darei, mesmo que por dentro esteja febril,
e quantas idades durará o brilho do olhar, quantos plays meu jazz favorito?
ainda lerei uns mil e seiscentos livros na vida se minhas contas estiverem certas
e havendo tantos anos esperando por mim, e com as córneas funcionando.
quantas músicas me farão calar e treinar o disfarce do pranto,
quantas vezes vou entrar numa estrada e quantas vezes vou deixá-la,
quantos mil quilômetros irei me perseguir, por quanto tempo me rastrearei?
irei ao supermercado muito mais vezes do que chegarei ao ponto.
talvez umas setecentas bilhões de ondas, já que do mar me afasto pouco
e beijos, quantas vezes os meus lábios roçarão os lábios dele?
provavelmente umas oitocentas e vinte mil vezes, até o final do ano.
quantas risadas ainda darei, mesmo que por dentro esteja febril,
e quantas idades durará o brilho do olhar, quantos plays meu jazz favorito?
ainda lerei uns mil e seiscentos livros na vida se minhas contas estiverem certas
e havendo tantos anos esperando por mim, e com as córneas funcionando.
quantas músicas me farão calar e treinar o disfarce do pranto,
quantas vezes vou entrar numa estrada e quantas vezes vou deixá-la,
quantos mil quilômetros irei me perseguir, por quanto tempo me rastrearei?
irei ao supermercado muito mais vezes do que chegarei ao ponto.
10
por onde queres entrar: boca, ouvido, vagina?
então entre e fique bem dentro, muito além da periferia
inicie sua turnê pelo interior do meu corpo e descubra
que muito mais do que um estômago, um fígado e dois rins
habita em mim uma cidade, um povaréu, outro planeta
experimente meu sangue, dê cá sua língua, lamba
sinta do que é feita a minha umidade, e com muito tato
desdobre meus pensamentos, que é aquela coisa enroscada
ali no meio do meu cérebro, desmonte, sacuda, não tenha medo
se cair não quebra, são várias ideias robustas
brigam entre si mas se gostam, moram na mesma casa
e onde faz barulho é onde fica o coração, musculoso e aflito
tem um som, reverbera, ora forte ora rançoso, chegue perto
e agora venha cá espiar com meus olhos, veja o que eu vejo
de que jeito enxergo o mundo de dentro pra fora, agora a alma
aproxime-se e toque, tirando o resto a alma é tudo o que sobra
então entre e fique bem dentro, muito além da periferia
inicie sua turnê pelo interior do meu corpo e descubra
que muito mais do que um estômago, um fígado e dois rins
habita em mim uma cidade, um povaréu, outro planeta
experimente meu sangue, dê cá sua língua, lamba
sinta do que é feita a minha umidade, e com muito tato
desdobre meus pensamentos, que é aquela coisa enroscada
ali no meio do meu cérebro, desmonte, sacuda, não tenha medo
se cair não quebra, são várias ideias robustas
brigam entre si mas se gostam, moram na mesma casa
e onde faz barulho é onde fica o coração, musculoso e aflito
tem um som, reverbera, ora forte ora rançoso, chegue perto
e agora venha cá espiar com meus olhos, veja o que eu vejo
de que jeito enxergo o mundo de dentro pra fora, agora a alma
aproxime-se e toque, tirando o resto a alma é tudo o que sobra
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