IV / O Breath
Beneath that loved and celebrated breast;
silent, bored really blindly veined,
grieves, maybe lives and lets
live, passes bets,
something moving but invisibly,
and with what clamor why restrained
I cannot fathom even a ripple.
(See the thin flying of nine black hairs
four around one five the other nipple,
flying almost intolerably on your own breath.)
Equivocal, but what we have in common's bound to be there,
whatever we most own equivalents for,
something that maybe I could bargain with
and make a separate peace beneath
within if never with.
IV / Fôlego
Sob aquele peito amado e célebre,
calado, no fundo entediado com veias cegas,
sofre, talvez viva e deixe correr
o barco, sem pagar para ver,
algo a mover-se mas invisível,
e com clamor só que contido
nenhum tremor tudo tranquilo.
(Vê o voo fino de nove pelos negros
quatro em torno de um cinco do outro mamilo,
voo quase insuportável no vento do teu próprio hálito.)
Ambíguo, mas o que temos em comum tem que estar lá,
seja lá o que havemos de ter entrar num acordo
um tratado de paz debaixo
dentro dele já que jamais com ele.
sábado, 22 de novembro de 2014
Four Poems: III / IV
III / While Someone Telephones
Wasted, wasted minutes that couldn't be worse,
minutes of a barbaric condescension.
-- Stare out the bathroom wndow at the fir-trees,
at their dark needles, accretions to no purpose
woodenly crystallized, and where two fireflies
are only lost.
Hear nothing but a train that goes by, must go by, like tension;
nothing. And wait:
maybe even now there minutes' host
emerges, some relaxed uncondescending stranger,
the heart's release.
And while the fireflies
are failing to illuminate there nightmare trees
might they not be his green gay eyes.
III / Enquanto Alguém Dá um Telefonema
Minutos perdidos, perdidos, não podiam ser piores,
minutos ferozmente arrogantes.
-- Olha pela janela do banheiro, vê os pinheiros,
suas agulhas escuras, apêndices cristalizados
sem serventia, onde dois vaga-lumes errantes
se perderam.
Ouve só um trem que passa, tem que passar, como uma tensão;
nada. E espera:
quem sabe agora mesmo o senhor desses minutos
não surgirá, algum estranho tranquilo, sem nenhuma arrogância,
trazendo ao coração alento.
E os vaga-lumes, enquanto
não iluminam essas árvores de espanto
serão talvez seus olhos vivos, verde-cinza.
Four Poems: II / IV
II / Rain Towards Morning
The great light cage has broken up in the air,
freeing, I think, about a million birds
whose wild ascending shadows will not be back,
and all the wires come falling down.
No cage, no frightening birds; the rain
is brightening now. The face is pale
that tried the puzzle of their prison
and solved it with an unexpected kiss,
whose freckled unsuspected hands alit.
II / Chuva na Madrugada
A grande gaiola de luz explodiu no ar,
libertando, creio, mais de um milhão de pássaros,
sombras que sobem, soltas, para nunca mais voltar,
e todos os fios despencam no chão.
Não há gaiola, nem pássaros assustadores; a chuva
está clareando agora. Pálido o rosto
que provou o enigma dessa prisão
e o resolveu com um beijo inesperado,
e as mãos sardentas e insuspeitas repousaram.
The great light cage has broken up in the air,
freeing, I think, about a million birds
whose wild ascending shadows will not be back,
and all the wires come falling down.
No cage, no frightening birds; the rain
is brightening now. The face is pale
that tried the puzzle of their prison
and solved it with an unexpected kiss,
whose freckled unsuspected hands alit.
II / Chuva na Madrugada
A grande gaiola de luz explodiu no ar,
libertando, creio, mais de um milhão de pássaros,
sombras que sobem, soltas, para nunca mais voltar,
e todos os fios despencam no chão.
Não há gaiola, nem pássaros assustadores; a chuva
está clareando agora. Pálido o rosto
que provou o enigma dessa prisão
e o resolveu com um beijo inesperado,
e as mãos sardentas e insuspeitas repousaram.
Four Poems: I / IV
I / Conversation
The tumult in the heart
keeps asking questions.
And then it stops and undertakes to answer
in the same tone of voice.
No one could tell the difference.
Uninnocent, these conversations start,
and then engage the senses,
only hapf-meaning to.
And then there is no choice,
and then there is no sense;
until a name
and all its connotations are the same.
I / Conversação
O tumulto no coração
faz um monte de perguntas.
Depois para e passa a dar respostas
no mesmo tom de voz.
Impossível ver a diferença.
Desinocentes, as conversas começam,
depois envolvem os sentidos,
meio a contragosto.
Depois não há mais escolha,
depois não há mais sentido;
até que some
a diferença entre o sentido e o nome.
The tumult in the heart
keeps asking questions.
And then it stops and undertakes to answer
in the same tone of voice.
No one could tell the difference.
Uninnocent, these conversations start,
and then engage the senses,
only hapf-meaning to.
And then there is no choice,
and then there is no sense;
until a name
and all its connotations are the same.
I / Conversação
O tumulto no coração
faz um monte de perguntas.
Depois para e passa a dar respostas
no mesmo tom de voz.
Impossível ver a diferença.
Desinocentes, as conversas começam,
depois envolvem os sentidos,
meio a contragosto.
Depois não há mais escolha,
depois não há mais sentido;
até que some
a diferença entre o sentido e o nome.
domingo, 13 de abril de 2014
14
Oh, quanto me pesa
este coração, que é de pedra.
Este coração que era de asas,
de música e tempo de lágrimas.
Mas agora é sílex e quebra
qualquer dura ponta de seta.
Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra.
Dizei por que assim me fizestes,
vós todos a quem amaria,
mas não amarei, pois sois estes
que assim me deixastes amarga,
sem asas, sem música e lágrimas,
assombrada, triste e severa
e com meu coração de pedra.
Oh, quanto me pesa
ver meu puro amor que se quebra!
O amor que era tão forte e voava
mais que qualquer seta!
domingo, 6 de abril de 2014
Insomnia / Insônia
The moon in the bureau mirror
looks out a million miles
(and perhaps with pride, at herself,
but she never, never smiles)
far and away beyond sleep, or
perhaps she's a daytime sleeper.
By the Universe deserted,
she'd tell it to go to hell,
and she'd find a body of water,
or a mirror, on which to dwell.
So wrap up care in a cobweb
and drop it down the well
into that world inverted
where left is always right,
where the shadows are really the body,
where we stay awake all night,
where the heavens are shallow as the sea
is now deep, and you love me.
*****************************
A lua no espelho da cômoda
está a mil milhas, ou mais
(e se olha, talvez com orgulho,
porém não sorri jamais)
muito além do sono, eu diria,
ou então só dorme de dia.
Se o Mundo a abandonasse,
ela o mandava pro inferno,
e num lago ou num espelho
faria seu lar eterno.
- Envolve em gaze e joga
tudo que te faz sofrer no
poço desse mundo inverso
onde o esquerdo é o que é o direito,
onde as sombras são os corpos,
e à noite ninguém se deita,
e o céu é raso como o oceano
é profundo, e tu me amas.
Tradução por Paulo Henriques Britto
looks out a million miles
(and perhaps with pride, at herself,
but she never, never smiles)
far and away beyond sleep, or
perhaps she's a daytime sleeper.
By the Universe deserted,
she'd tell it to go to hell,
and she'd find a body of water,
or a mirror, on which to dwell.
So wrap up care in a cobweb
and drop it down the well
into that world inverted
where left is always right,
where the shadows are really the body,
where we stay awake all night,
where the heavens are shallow as the sea
is now deep, and you love me.
*****************************
A lua no espelho da cômoda
está a mil milhas, ou mais
(e se olha, talvez com orgulho,
porém não sorri jamais)
muito além do sono, eu diria,
ou então só dorme de dia.
Se o Mundo a abandonasse,
ela o mandava pro inferno,
e num lago ou num espelho
faria seu lar eterno.
- Envolve em gaze e joga
tudo que te faz sofrer no
poço desse mundo inverso
onde o esquerdo é o que é o direito,
onde as sombras são os corpos,
e à noite ninguém se deita,
e o céu é raso como o oceano
é profundo, e tu me amas.
Tradução por Paulo Henriques Britto
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Canção do Caminho
Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
nem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.
Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!
Ah! Mas logo ali adiante
- tão perto! -
acaba-se a terra bela.
para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.
(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)
sem rumo,
nem nenhum itinerário.
O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.
Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!
Ah! Mas logo ali adiante
- tão perto! -
acaba-se a terra bela.
para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.
(Isto são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)
pareça e desapareça
Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parece mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice-versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parece mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice-versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
Praia do Caju
Escuta:
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.
Nesta tarde de férias, disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
o lume
que na carne das horas se perdeu.
Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes conversando na varanda
no riso de Marília no vermelho
guarda-sol esquecido na calçada.
O que passou passou e, muito embora,
voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo
sol
que o Universo não mudou nestes vinte anos.
Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
em soluços quase te perguntas
onde está o menino
igual àquele que cruza a rua agora,
franzino assim, moreno assim.
Se tudo continua, a porta
a calçada a platibanda,
onde está o menino que também
aqui esteve? aqui nesta calçada
se sentou?
E chegas à amurada. O sol é quente
como era, a esta hora. Lá embaixo
a lama fede igual, a poça de água negra
a mesma água o mesmo
urubu pousado ao lado a mesma
lata velha que enferruja.
Entre dois braços d'água
esplende a croa do Anil. E na intensa
claridade, como sombra,
surge o menino
correndo sobre a areia. É ele, sim,
gritas teu nome: "Zeca,
Zeca!"
Mas a distância é vasta
tão vasta que nenhuma voz alcança.
O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume
do tempo que apagou.
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.
Nesta tarde de férias, disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
o lume
que na carne das horas se perdeu.
Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes conversando na varanda
no riso de Marília no vermelho
guarda-sol esquecido na calçada.
O que passou passou e, muito embora,
voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo
sol
que o Universo não mudou nestes vinte anos.
Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
em soluços quase te perguntas
onde está o menino
igual àquele que cruza a rua agora,
franzino assim, moreno assim.
Se tudo continua, a porta
a calçada a platibanda,
onde está o menino que também
aqui esteve? aqui nesta calçada
se sentou?
E chegas à amurada. O sol é quente
como era, a esta hora. Lá embaixo
a lama fede igual, a poça de água negra
a mesma água o mesmo
urubu pousado ao lado a mesma
lata velha que enferruja.
Entre dois braços d'água
esplende a croa do Anil. E na intensa
claridade, como sombra,
surge o menino
correndo sobre a areia. É ele, sim,
gritas teu nome: "Zeca,
Zeca!"
Mas a distância é vasta
tão vasta que nenhuma voz alcança.
O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume
do tempo que apagou.
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