domingo, 8 de abril de 2012

Desconexo

Vence o sono feito torpor
Aqui vai uma ocupação que me faz esquecer quem sou

Como esvair da consciência
O cotidiano me preenche
Fico preocupado não sei do quê

Tudo passa sem se dar conta
Nada que faço justifica quem sou

Ninguém projeta sombra

Onde estive livre ultimamente?

Fumaça, fumaça, feito tempo
Onde vendo minha alma que já não me faz falta?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Poeminha Fora da Estação

II 
Coragem É Isso, Bicho!

Eu sofro de mimfobia
Tenho medo de mim mesmo
Mas me enfrento todo dia.

segunda-feira, 5 de março de 2012

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso esquecer é o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos nossos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Pouco importa de onde a brisa
Traz o olor que nela vem.
O coração não precisa
De saber o que é o bem.

A mim me baste nesta hora
A melodia que embala.
Que importa se, sedutora,
As forças da alma cala?

Quem sou, p'ra que o mundo perca
Com o que penso a sonhar?
Se a melodia me cerca
Vivo só o me cercar...
   vida e morte
amor e dúvida
   dor e sorte

   quem for louco
que volte

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

68.

um presente, o amor que acontece ao mesmo tempo
ele por ela, ela por ele, um pelo outro, vigilantes
um amor em que ele a quer, ela o deseja, homem, mulher
um presente, o amor que resiste ao inconstante

Pigs On The Wing - Part Two

You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Hey Jude

Hey Jude, don't make it bad,
Take a sad song and make it better
Remember, to let her into your heart,
Then you can start to make it better.
Hey Jude, don't be afraid,
You were made to go out and get her,
The minute you let her under your skin,
Then you begin to make it better.
And anytime you feel the pain,
Hey Jude refrain,
Don't carry the world upon your shoulders.
For well you know that it's a fool,
Who plays it cool
By making his world a little colder.
Hey Jude don't let me down,
You have found her now go and get her
Remember to let her into your heart,
Then you can start to make it better.
So let it out and let it in
Hey Jude begin,
You're waiting for someone to perform with.
And don't you know that it's just you.
Hey Jude, you'll do,
The movement you need is on your shoulder.
Hey Jude, don't make it bad,
Take a sad song and make it better,
Remember to let her under your skin,
Then you'll begin to make it better.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

As razões que o amor desconhece

Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes de Ettore Scola, dos irmãos Coen e Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor.  É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine al pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoas pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertados mais pelas flechas do Cupido do que por uma ficha limpa.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele só escuta Egberto Gismonti e Sivuca. Não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama esse cara? Não pergunte pra mim.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco, você levou-a para conhecer a sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo,  nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é.

Julho de 1998

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

51.

quem de mim você quer?
sou boa mãe, esposa exemplar
profissional respeitada, prendas do lar
gosto de plantas, sou organizada e sei bordar

quem de mim você quer?
sou meio maluca, danço sozinha
bebo profissionalmente e não dou vexame
sou sexy, malandra, boa de cama

quem de mim você quer?
leio até tarde Proust, Balzac, Flaubert
escrevo poemas, visito escolas
sou capaz de citar Baudelaire

quem de mim você quer?
faço ginástica, musculação, caminhada
nado mar adentro, jogo vôlei, frescobol
novecentos abdominais por semana

quem de mim você quer?
acampo em desertos, não tenho medo de avião
gosto de Paris, Londres, cidades plurais
bicicleta, motorhome, paraquedas, mil milhas

quem de mim você quer? 
a maternal que atravessa madrugadas insones?
a visceral que não deixa você dormir?
a internacional que fala várias línguas?
escolha seu percentual de mulher
Todos dançam lentamente
Dão seus passos tímidos para o lado
E esperam que a música os arremate
Mas todos dançam sozinhos
Mesmo acompanhados
Ninguém pode escutar ou sintonizar
A música que toca em cada íntimo

A vida sempre promove um baile cego
Todos dançam com todos
Mas na verdade, ninguém dança com ninguém

Tente assobiar
E saberá que a felicidade é somente sua
Imperfeito, solitário e trágico

Mas o amor também dança em passo lento
Ele dita, mastiga e cospe
A partitura que você rege
Para tocar
A miserável sinfonia de cada um de nós
Nada sou, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão, meu ser comigo.
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.

Fora disto, que é nada, sob o azul
Do lato céu um vento vão do sul
Acorda-me e estremece no verdor.
Ter razão, ter vitória, ter amor

Murcharam na haste morta da ilusão.
Sonhar é nada e não saber é vão.
Dorme na sombra, incerto coração.
Quem chega ao seu extremo
não disfarça.
Desvio os olhos,
nunca a respiração.

A queda é uma árvore que volta.
Os bichos lambem as entranhas,
envolvidos pelo instinto de cavar
as raízes e caules.
Eles desenterram
o que enterramos nos costumes.
Nos separamos para tirar férias.
Em cada reconciliação,
entrava em teu corpo
como se tudo fosse novo
e impossível de brincar
em uma tarde.
Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me na fronte...
Minha vida é escombros,
A minha alma insolente.

Eu não sei por quê,
Meu desde onde venho,
Sou o ser que se vê,
E vê tudo estranho.

Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.

47.

o que me prejudica
é essa mania de dizer a verdade
quando deveria mentir
e fingir que estou à vontade
quando na verdade machuca
Deixei de tentar converter
a todo custo
o formigueiro de casa
em colmeia.

Aceitei a ordem natural
dos insetos:
as moscas na cozinha
e os mosquitos no quarto.

43.

beije-me as coxas
pálpebras, dedos, lóbulos
os dois

beije-me os seios
um e outro, que são ciumentos
ambos

beije-me os lábios
superior e inferior
os grandes e os pequenos

todos

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

45.

quando dá tudo errado
visto uma camiseta e faço um rabo de cavalo
quando dá tudo errado
como pouco e tomo muita água
quando dá tudo errado
me masturbo e durmo até mais tarde
quando dá tudo errado
troco os lençóis
passo perfume francês
faço as unhas das mãos e dos pés
e dispenso a penitência
já que não deu tudo certo
coloco um disco que gosto
escolho uns poemas que toquem
e os releio deitada no sofá
tudo errado que dá
é consciência

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A dor que dói mais

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde ia. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. 
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de caju. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido às aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando. 
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. 
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer. 

 Julho de 1998 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Cena

Vou fazer cena, amor,
Pra ver
Se vale a pena a dor
Só pra eu ser tema desse teu compor.

Não sou assim, amor,
Foi só
Uma maré ruim,
Perdoa o drama,
E não desista de mim.

Você quando chamou, eu não pude ir
Eu tive muito medo na hora
E hoje sou culpada.

E eu, que fico à flor da pele,
Sem querer,
Eu tenho um coração vulcânico
E sempre acabo errada.

Não, não diga que eu lhe trato mal,
Eu tento tanto te fazer feliz,
Mas acontece que eu sou desastrada.

Não, eu nunca quis te machucar,
Prometo pra você deixar de cena,
Acho que eu só quero ser amada.

Vou fazer cena, amor,
Pra ver
Se vale a pena a dor
Só pra eu ser tema desse teu compor.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Poeminha (Bem) Moderato

Hora de beber; parcimônia,
Hora de falar; discrição,
Hora de comer; continência,
Hora de amar - (muita) atenção.

provaremos as ilhas e o mar

sei que em alguma noite
em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios

canções como as que nenhuma rádio
toca

toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.