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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Alguém dentro de mim

Alguém dentro de mim
mente para me proteger.
Não sei quem tem razão
sobre meus desastres.
Se permaneci em excesso
e não varei a outra margem.
Se me deixei fora por muito tempo
e esqueci o endereço.

Quando estamos próximos de dizer
é que não estamos mais aqui.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Enfrentamos infâncias terríveis,
com as maldades correndo
nos dois lados.

Meu rosto é estranho, metade
elefante, metade cavalo,
como se não tivesse sido acabado.
Colegas contavam minha história
dizendo que ficou a placenta
e esqueceram o feto.

Foste estrábica
pelo teu desejo de estar
em dois lugares
ao mesmo tempo.

Mudamos o caminho da escola,
não arredávamos o pé da sala no recreio,
aguentamos o corredor polonês,
os arremessos da merenda.

Não me venha dizer que a infância é pura e bela,
ela assassina a ternura tanto quanto a velhice.

Como uma irmã menor que me cabe guiar,
pego forte a mão de teus olhos
para atravessar a rua.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Quem chega ao seu extremo
não disfarça.
Desvio os olhos,
nunca a respiração.

A queda é uma árvore que volta.
Os bichos lambem as entranhas,
envolvidos pelo instinto de cavar
as raízes e caules.
Eles desenterram
o que enterramos nos costumes.
Nos separamos para tirar férias.
Em cada reconciliação,
entrava em teu corpo
como se tudo fosse novo
e impossível de brincar
em uma tarde.
Deixei de tentar converter
a todo custo
o formigueiro de casa
em colmeia.

Aceitei a ordem natural
dos insetos:
as moscas na cozinha
e os mosquitos no quarto.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não pretendo saber o que me pertence
para guardar melhor.

Há algo que o tempo não toca.
O tempo não está decidido no rosto,
mas na forma como se escapa do tempo.
Quanto maior o desespero em fugir,
maior será a velhice.

domingo, 4 de setembro de 2011

À queima-roupa,
tua nudez
foi meu casaco aos ombros.
Fazia frio no futuro.
Não beijes a minha testa.
Que seja a orelha, o nariz,
o queixo.
A testa, não.
Sinal excessivo de respeito.
Um pouco mais
e me chamas de pai
junto com os filhos.

domingo, 31 de julho de 2011

As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
O esforço do pulmão
capturado pelo envelope,
a letra tremendo
como uma pálpebra.
Não a cola isenta, neutra,
mas a espuma, a gentileza,
a gripe, o contágio.
Porque a saliva acalma um machucado.

As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.
Não me inquieto
quando não recebo as respostas
das perguntas que não fiz.
Eu me conformei
em reservar alguma coisa
de ti para saber depois.
Um pouco de nosso amor
será póstumo.
É recomendável
não descobrir todos os segredos.

domingo, 8 de maio de 2011

Não diferencio os cogumelos

Não diferencio os cogumelos
venenosos dos sadios,
os inços das ervas curativas.
Como descobrir
o que mata
sem morrer um pouco por vez?

Há partes dentro da gente

Há partes dentro da gente
que nunca serão educadas.
A morte é uma delas.

Não sou o que aprendi.
Sou o que falta aprender.

Um pouco de

Um pouco de raiva não me fará mal.
Há frutos que apodrecem
por excesso de doçura.