Velhos amores incompletos
no gelo seco do passado,
velhos furores demenciais
esmigalhados no mutismo
de demônios crepusculares,
velhas traições a doer sempre
na anestesia do presente,
velhas jogadas de prazer
sem a menor deleitação,
velhos signos de santidade
atravessando a selva negra
como cervos escorraçados,
velhos gozos de torva índole,
velhas volúpias estagnadas,
velhos braços e mãos e pés
em transtornada oscilação
logo detida, velhos choros
que não puderam ser chorados,
velhos issos, velhos aquilos,
dos quais sequer me lembro mais...
sábado, 2 de novembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Eu
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
domingo, 1 de setembro de 2013
O segundo, que me vigia
Implacável ponteiro dos segundos.
Não, não quero este decassílabo.
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo, é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
a possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não pára, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
ou apressada
por quantos segundos?
enxuga aí
enxuga aí
vê se enxerga
essa lágrima
eu deixei cair
examina
examina bem
vê se não é
água da pedra
ouro da mina
essa gotadágua
minha
obra-prima
vê se enxerga
essa lágrima
eu deixei cair
examina
examina bem
vê se não é
água da pedra
ouro da mina
essa gotadágua
minha
obra-prima
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Inibição
Vou cantar uma cantiga,
vou cantar - e me detenho:
porque sempre alguma coisa
minha voz está prendendo.
Pergunto à secreta Música
por que falha o meu desejo,
por que a voz é proibida
ao gosto do meu intento.
E em perguntar me resigno,
me submeto e me convenço.
Será tardia, a cantiga?
Ou ainda não será tempo...
vou cantar - e me detenho:
porque sempre alguma coisa
minha voz está prendendo.
Pergunto à secreta Música
por que falha o meu desejo,
por que a voz é proibida
ao gosto do meu intento.
E em perguntar me resigno,
me submeto e me convenço.
Será tardia, a cantiga?
Ou ainda não será tempo...
Canção Final
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo era tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
sábado, 27 de julho de 2013
Aceitação
É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
e sentir passar as estrelas do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
domingo, 28 de abril de 2013
Humildade
Tanto que fazer!
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.
1954
livros que não se lêem, cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.
Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis...
até o fim do mundo assinando papéis.
E os pássaros detrás de grades de chuva.
E os mortos em redoma de cânfora.
(E uma canção tão bela!)
Tanto que fazer!
E fizemos apenas isto.
E nunca soubemos quem éramos,
nem para quê.
1954
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Com Licença Poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira,
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira,
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Enfrentamos infâncias terríveis,
com as maldades correndo
nos dois lados.
Meu rosto é estranho, metade
elefante, metade cavalo,
como se não tivesse sido acabado.
Colegas contavam minha história
dizendo que ficou a placenta
e esqueceram o feto.
Foste estrábica
pelo teu desejo de estar
em dois lugares
ao mesmo tempo.
Mudamos o caminho da escola,
não arredávamos o pé da sala no recreio,
aguentamos o corredor polonês,
os arremessos da merenda.
Não me venha dizer que a infância é pura e bela,
ela assassina a ternura tanto quanto a velhice.
Como uma irmã menor que me cabe guiar,
pego forte a mão de teus olhos
para atravessar a rua.
com as maldades correndo
nos dois lados.
Meu rosto é estranho, metade
elefante, metade cavalo,
como se não tivesse sido acabado.
Colegas contavam minha história
dizendo que ficou a placenta
e esqueceram o feto.
Foste estrábica
pelo teu desejo de estar
em dois lugares
ao mesmo tempo.
Mudamos o caminho da escola,
não arredávamos o pé da sala no recreio,
aguentamos o corredor polonês,
os arremessos da merenda.
Não me venha dizer que a infância é pura e bela,
ela assassina a ternura tanto quanto a velhice.
Como uma irmã menor que me cabe guiar,
pego forte a mão de teus olhos
para atravessar a rua.
domingo, 8 de abril de 2012
Desconexo
Vence o sono feito torpor
Aqui vai uma ocupação que me faz esquecer quem sou
Como esvair da consciência
O cotidiano me preenche
Fico preocupado não sei do quê
Tudo passa sem se dar conta
Nada que faço justifica quem sou
Ninguém projeta sombra
Onde estive livre ultimamente?
Fumaça, fumaça, feito tempo
Onde vendo minha alma que já não me faz falta?
Aqui vai uma ocupação que me faz esquecer quem sou
Como esvair da consciência
O cotidiano me preenche
Fico preocupado não sei do quê
Tudo passa sem se dar conta
Nada que faço justifica quem sou
Ninguém projeta sombra
Onde estive livre ultimamente?
Fumaça, fumaça, feito tempo
Onde vendo minha alma que já não me faz falta?
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Poeminha Fora da Estação
II
Coragem É Isso, Bicho!
Eu sofro de mimfobia
Tenho medo de mim mesmo
Mas me enfrento todo dia.
segunda-feira, 5 de março de 2012
É preciso não esquecer nada
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso esquecer é o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos nossos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.
O que é preciso esquecer é o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos nossos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Pouco importa de onde a brisa
Traz o olor que nela vem.
O coração não precisa
De saber o que é o bem.
A mim me baste nesta hora
A melodia que embala.
Que importa se, sedutora,
As forças da alma cala?
Quem sou, p'ra que o mundo perca
Com o que penso a sonhar?
Se a melodia me cerca
Vivo só o me cercar...
Traz o olor que nela vem.
O coração não precisa
De saber o que é o bem.
A mim me baste nesta hora
A melodia que embala.
Que importa se, sedutora,
As forças da alma cala?
Quem sou, p'ra que o mundo perca
Com o que penso a sonhar?
Se a melodia me cerca
Vivo só o me cercar...
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Interlúdio
As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
68.
um presente, o amor que acontece ao mesmo tempo
ele por ela, ela por ele, um pelo outro, vigilantes
um amor em que ele a quer, ela o deseja, homem, mulher
um presente, o amor que resiste ao inconstante
ele por ela, ela por ele, um pelo outro, vigilantes
um amor em que ele a quer, ela o deseja, homem, mulher
um presente, o amor que resiste ao inconstante
Pigs On The Wing - Part Two
You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Hey Jude
Hey Jude, don't make it bad,
Take a sad song and make it better
Remember, to let her into your heart,
Then you can start to make it better.
Hey Jude, don't be afraid,
You were made to go out and get her,
The minute you let her under your skin,
Then you begin to make it better.
And anytime you feel the pain,
Hey Jude refrain,
Don't carry the world upon your shoulders.
For well you know that it's a fool,
Who plays it cool
By making his world a little colder.
Hey Jude don't let me down,
You have found her now go and get her
Remember to let her into your heart,
Then you can start to make it better.
So let it out and let it in
Hey Jude begin,
You're waiting for someone to perform with.
And don't you know that it's just you.
Hey Jude, you'll do,
The movement you need is on your shoulder.
Hey Jude, don't make it bad,
Take a sad song and make it better,
Remember to let her under your skin,
Then you'll begin to make it better.
Take a sad song and make it better
Remember, to let her into your heart,
Then you can start to make it better.
Hey Jude, don't be afraid,
You were made to go out and get her,
The minute you let her under your skin,
Then you begin to make it better.
And anytime you feel the pain,
Hey Jude refrain,
Don't carry the world upon your shoulders.
For well you know that it's a fool,
Who plays it cool
By making his world a little colder.
Hey Jude don't let me down,
You have found her now go and get her
Remember to let her into your heart,
Then you can start to make it better.
So let it out and let it in
Hey Jude begin,
You're waiting for someone to perform with.
And don't you know that it's just you.
Hey Jude, you'll do,
The movement you need is on your shoulder.
Hey Jude, don't make it bad,
Take a sad song and make it better,
Remember to let her under your skin,
Then you'll begin to make it better.
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